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Flores e chocolate – uma introdução à biologia do Amor

 

Ricardo Cavalcanti

 

O título pode parecer estranho mas é este mesmo. Eu vou falar sobre:

 

Flores e chocolate – uma introdução à biologia do Amor

 

          Faz mais ou menos uns 10 anos que eu fiz uma Conferência em Belo Horizonte, sobre a História Natural do Amor. Era uma homenagem a Morton Hunt um escritor norte-americano que escreveu um livro chamado The natural history of love. Seguindo os passos de Hunt meu primeiro impulso foi perguntar o que era o amor. E eu perguntei aos poetas e eu perguntei aos filósofos e, eu visitei o Olimpo e perguntei aos deuses o que era o amor. Ninguém me respondeu.

         Eu apelei então para os historiadores e estudei o amor através dos tempos e seguindo passo a passo a construção da civilização ocidental, eu estudei o amor entre os Gregos, o amor entre os Romanos, o amor entre os Judeus. Entrei no cristianismo e estudei o amor na óptica de Agostinho, Jerônimo e Tertuliano, e me vi na Idade Média e lá contemplei o amor dos plebeus e dos nobres, e até  o amor escondido nos  conventos. Depois saí pelos castelos acompanhando os trovadores e vi nascer entre eles o amor cortesão e depois notei que o amor se fez ridículo, desprestigiado, tanto que na Idade da Razão ele fora reduzido à mera sensualidade. Seduzia-se pelo prazer de seduzir e não necessariamente pelo prazer do ato sexual em si. Alí encontrei Giovani Jacopo Casanova e Don Juan Tenório de Servilha, o célebre Don Juan, personagem encantador de uma comedia escrita por Tirso Molina no século XVII.

            Nos fins do século XVII o amor teve um novo alento. Nasceu cheio de sonhos e de fantasia. Era o amor romântico, o amor de pierot e colombina, o amor de Romeu e Julieta. Mais adiante, na Inglaterra, a rainha Vitória converteu o amor em coisa imoral e indesejável. O ideal vitoriano era o amor platônico, o amor sem sexo. E deste amor sem sexo olhei para o sexo sem amor, tão comum no homem moderno.

           Andei por todos estes caminhos porque eu queria exatamente saber o que era o amor. Hoje 10 anos depois ainda ando procurando, e estou cada vez mais convencido de que o amor não pode ser estudado pela razão. O amor não parece ser racional, mas, num último alento de racionalidade eu me agarrei a biologia e me lembrei de  Theresa Grenshow. Ela escreveu há pouco mais de 5 anos um livro intitulado “ The alchemy of love and lust”. (A Alquimia do amor e do tesão). Ainda bem que é “lust” e não “lost” que em inglês significa perdido.

          A Dra. Grenshow correlaciona o amor com a biologia e subitamente vejo o amor vestido de hormônios, de neurotransmissores e de outras substâncias psicoativas.

          Mas o fato é que a Dra. Grenshow desenvolve de uma maneira tão lógica seu raciocínio e apresenta tantas provas objetivas, laboratoriais e experimentais, que me deixou tonto. Há toda uma pesquisa etológica em que os animais de laboratório são estudados, e os impulsos sexuais bem analisados e correlacionados com substâncias hormonais. É claro que não posso transportar tudo o que acontece entre os animais infra-humanos para os humanos.  Eu sempre defendi e continuo defendendo a importância da cultura na vida das pessoas. Afinal sou antropólogo e como antropólogo eu creio que, na espécie humana, o amor é mais cultura do que natura, mas como médico eu não posso negar que a natura existe. Hoje eu vou enfocar como a natura influencia a cultura na construção do amor.

          Vamos logo acabar com este dualismo amor platônico / amor sexual. Um amor do pescoço para cima e um outro do umbigo para baixo.   No meio fica o coração, sede do amor dos poetas e das crianças, amor sempre ameaçado pela realidade das arterioscleroses e dos infartos.

            O chamado amor platônico é uma grandiosa ilusão literária que foi durante algum tempo uma espécie de ideal religioso praticado principalmente pelos anjos e arcanjos. Este amor está fora de nosso estudo. Também não cabe aqui falar do inocente amor dos poetas e das crianças.

            O que impropriamente se chama amor sexual nada mais é que o impulso que move os animais para terem relações sexuais no momento propício à fecundação e, por conseqüência, visando a conservação da espécie. Este tipo de amor é biologia pura e ele existe em todos os seres sexuados: anfíbios, répteis, insetos, aves, mamíferos... seres humanos.

            O que comumente se chama de amor, ou melhor, de emoção amorosa é outra coisa.  Este tipo de amor é produção da cultura e dentro dele temos algumas variedades.  Vou destacar apenas duas: o amor romântico, da qual a paixão é sua forma aguda, e o amor maduro que na “Arte de Amar”, Erich Fromm define como sendo “o paradoxo de dois seres que se convertem em um só, e não obstante continuam sendo dois”.

            A paixão é uma encantadora “doença do amor”. É uma espécie de loucura momentânea e não é sem razão que uma pessoa diz para a sua amada “Eu estou louco por você”. Do ponto de vista psiquiátrico, o apaixonado sofre de um distúrbio obsessivo-compulsivo. E isto não é uma afirmativa aleatória porque em "ambos os estados estão baixos os níveis cerebrais de serotonina, uma substância química fabricada pelo corpo que nos ajuda a lidar com as situações estressantes”.

             Aliás, vale lembrar que bebidas alcoólicas também diminuem os níveis de serotonina no cérebro, criando a ilusão  de  que  a  pessoa  do  outro  lado  da mesa do bar é o amor eterno de sua vida. Cuidado, portanto, com o álcool... sobretudo a beira-mar e em noite de lua.

             O amor romântico é o sonho ideal de um indivíduo projetado em outra pessoa. É uma hipervalorização do outro que se destrói e se fragmenta ante a realidade. É um amor novo que, de repente, se torna velho e sem encanto. 

             Manoel Bandeira já dizia: “o amor é chama, depois fumaça; o fumo vem a chama passa”.

             Também já se disse com muita graça que o amor à primeira vista é possível, mas ele é com freqüência curado quando limpamos os óculos, e damos um segundo olhar.

               As culturas inventaram o amor. Vejam bem, elas não inventaram o sexo, mas inventaram um significado para o sexo. A atração sexual é um fenômeno universal, mas o amor não. Ele é a interpretação específica que uma cultura faz da universalidade da ação sexual e, obviamente, de suas complicações. Como se vê, o amor é plural e não singular, porque há tantas formas de amar quantas culturas existirem.

           O amor cortesão e o amor romântico são invenções da cultura, e como a cultura muda com o tempo, uma concepção de amor que foi boa em determinada época pode se tornar anacrônica e até ridícula em outra.

Ainda que se possa dizer que uma forma de amor é biológica e que a outra forma de amor é cultural, esta é uma separação arbitrária porque no ser humano a cultura está tão intimamente relacionada com o biológico e o biológico tão impregnado da cultura que não é possível  separá-los, sem destruir a unidade humana.

          Na verdade o amor é um só, mas devo começar dizendo que todo amor é sexual na sua origem. Eu concordo plenamente com Salomon quando diz que não importa o quanto seja inibido, desvirtuado, puro ou sublimado.

        “O amor não contém somente sexo, mas depende dele, se alimenta dele, utiliza-o como seu instrumento, sua linguagem e, freqüentemente, como seu conteúdo básico. Não podemos esquecer que o sexo é corporal e o desejo sexual nos torna criaturas corporais”.

          O amor pode começar na biologia, porém é essencialmente cultural. Ele é um conjunto de idéias e de atitudes diante do sexo, mesmo quando este não é explicitamente mencionado. O amor é muito mais do que sexo. O sexo é algo concreto, mas o amor é tão mutável, tão volátil e tão ilusório que muda até quando estamos olhando para ele.

         Nos animais inferiores a atividade sexual é regida, sobretudo, pelos hormônios, mas à medida que vamos subindo na escala zoológica ela vai se tornando cada vez mais corticalizada e menos dependente da ação hormonal. 

        Não se pode negar que existe una tendência genética par o amor.  Money afirma que os “mapas de amor” começam a se formar a partir do nascimento. Esta é uma visão culturalista ou se quizerem cognitivista, porque tantos os “mapas de amor” quanto os “esquemas cognitivos” ou “crenças centrais”  na verdade começaram a se formar com a constituição genética e individual de cada um. A partir do nascimento é que esta constituição genética peculiar é submetida às estimulações culturais do ambiente, e o individuo vai cristalizando seu “mapa de amor”, através de sua aprendizagem cultural e de suas experiências de vida.  Mas o que faz com que uma pessoa fique enamorada de outra não é somente o cultural, não é somente porque nos construímos uma lista inconsciente de coisas que desejamos e encontramos na outra.

        Biologia e cultura estão unidas na construção dos “mapas de amor” ou, se preferirem, na construção dos “esquemas cognitivos” de Aaron Beck.

       Seja como for, perdidas no horizonte do passado estão as plantações de ervilha de um certo monge chamado Gregor Mendel. Hoje, com o Projeto Genoma Humano, com os avanços da engenharia genética, eu não sei, olhando para o horizonte do futuro, onde nos levará este conhecimento. Talvez ele esteja repleto de promessas que não possa cumprir, mas já começaram as fabricações de vacinas genéticas.  Deus meu!  Será que um dia vão descobrir vacinas contra o desamor? Pobre do Huxley com o seu já superado “Admirável Mundo Novo”.

          O que sabemos hoje é que para despertar nos humanos essa compulsão para amor sexual, os gens utilizam a química cerebral. Quando estamos diante de estímulos sexuais efetivos, estes estímulos são captados pelos órgãos dos sentidos e tem lugar uma transmissão entre os neurônios, o que desencadeia uma cascata de reações químicas, iniciadas por substâncias produzidas no próprio cérebro, e denominadas de neurotransmissores.

          Durante muito tempo se disse que os estímulos sexuais eram captados pela vista. Acredito nisso, mas acho que o amor também entra pelos ouvidos. Quem desconhece a importância de palavras carinhosas ditas ao ouvido? Quem desconhece  que o som de uma certa música aviva na memória a lembrança da pessoa amada? A memoria auditiva é muito forte.   

          Faz algum tempo que a ciência anunciou que na realidade o amor entra também pelas fossas nasais. Esta afirmativa deve-se ao descobrimento de substâncias que atraem ou repelem certos animais.   Estas substâncias, chamadas feromônios são voláteis e viajam no ar sem se destruir. São produzidas por um indivíduo e exercem seus efeitos em outro.

         Em certos insetos, como as mariposas, o macho pode detectar a fêmea a quilômetros de distância.

         Nos mamíferos os feromônios permitem que os machos identifiquem as fêmeas que estão no cio. Às vezes cadelas feias, magras e rabugentas são vistas pelos machos como lindas princesas, o que me faz pensar que, no cio, os cachorros se transformam em Don Quixotes e a mais desgrenhada cadela se transforma em uma Dulcineia canina.

         Estes feromonas são notáveis. Muitos carnívoros marcam os seus domínios urinando, e assim formam uma cerca invisível de odor. E não se pense que os feromonas são prerrogativas apenas dos animais.

         As flores não são coloridas e perfumadas à-toa. Plantas com flores vistosas e coloridas ou que emitem odores, em geral, contam com a colaboração de animais para que a polinização ocorra; a cor e o cheiro são sinais que indicam aos animais a existência de alimento.

        O odor das flores atrai as abelhas. O aroma de certas orquídeas, por exemplo, é uma imitação do odor sexual da abelha-fêmea. E aqui entre nós: quem se esquece do perfume da pessoa amada?

       Cada pessoa tem seu cheiro próprio, e o cheiro na pessoa amada é agradável para o amante. Quando um homem faz sexo oral o que lhe atrai é o odor próprio da vulva e não o sabor de morango ou de maças que algumas mulheres usam nos sprays para disfarçar o seu perfume sexual próprio.

         Tem sido muito discutido se os feromonas existem ou não nos seres humanos. Tudo indica que sim. Tudo indica que também podemos nos comunicar por sinais bioquímicos inconscientes.

         É verdade que tudo isso acontece, mas não podemos dizer que o amor pode ser explicado, somente, através de equações químicas.

         Por outro lado, não é possível negar, no entanto, que quando alguém se apaixona seu organismo é atacado por varias substâncias, dentre elas a feniletilamina. Uma simples troca de olhar ou um aperto de mão podem desencadear a produção de feniletilamina. 

         Lembro-me de ter lido, não me recordo onde, que qualquer cientista da área biológica poderá dizer que a paixão nada tem a ver com as setas do Cupido, a não ser que o pequeno Deus tenha mergulhado suas setas em um tanque cheio de feniletilamina.

        Há mais de 100 anos que os cientistas conhecem esta substância, mas só recentemente é que os doutores Donald F. Klein e Michael Lebowitz, do Instituto Psiquiátrico Estadual de Nova Iorque descobriram a relação entre feniletilamina e o amor. Eles sugeriram que o cérebro de uma pessoa enamorada contém grandes quantidades de feniletilamina, e que esta substância poderia ser a responsável, em grande parte, pelas sensações e modificações fisiológicas que experimentamos quando estamos enamorados.

        Também é interessante assinalar que a feniletilamina existe em altos níveis no chocolate, o que fez com que alguns cientistas procurassem dar explicações racionais para esclarecer o por que as pessoas compram chocolates para suas amadas.

Tudo tem uma certa razão de ser. O chocolate sempre teve uma reputação de afrodisíaco, tanto que, nos conventos da Idade Média, as freiras eram proibidas de comer chocolate, mas a proibição não se estendia aos padres. O que mostra que na história da inequidade de gênero até o chocolate tem lugar... Adianto porém que a feniletilamina no chocolate se degrada muito rapidamente, de modo que vai ser preciso comer muito chocolate para que se observe algum efeito... e haja gordura.

Interessante observar a relação dos feromonas e da feniletilamina. Sempre juntos. Não é sem razão o costume dos apaixonados oferecerem chocolates, juntamente com um buquê de flores para as mulheres de seus sonhos. Talvez não seja uma mera coincidência que as flores e o chocolate façam parte das conquistas amorosas em todo o mundo.

        Pensando nisso foi que intitulei esta conferência para

        “ Flores e chocolate – uma introdução a biologia do Amor”.

          Quando Peter Godfrey e seus colaboradores, no ano passado, anunciaram que haviam descoberto o arranjo dos átomos que constituem a molécula da feniletilamina, os meios de comunicação anunciaram a possibilidade de se fabricar porções do amor. 

Dr Godfrey de imediato afirmou que “poderia ser possível no futuro produzir drogas sintéticas para elevar ou suprimir os efeitos eufóricos naturais do amor, mas, atualmente, o interesse mais imediato era saber como esta descoberta poderia ajudar outras áreas da investigação química”.

           Eu me recordo que existia antigamente um remédio chamado Regulador Xavier, número 1 e Regulador Xavier número 2, um servia para diminuir a menstruação; outro para aumentar o fluxo menstrual. Será que vão descobrir um regulador amoroso de número 1 para aumentar o amor e um regulador de número 2 para diminuir o excesso de paixão? Só o futuro dirá.

          Mas nesta história da composição química do amor entram também outras drogas. Como se vê o amor é complicado em qualquer que seja o nível.

          Faz muito tempo que sabemos que as emoções têm uma base química, mas ninguém se preocupou muito em analisar a base química do amor.

          O fato é que ao se perceber uma estimulação sexual há uma verdadeira pirotecnia química.

          Os neurotransmissores levam a mensagem erótica e vão despertando toda uma cadeia de substâncias químicas. 

          Na fase de atração e enamoramento é a feniletilamina que orquestra a secreção de substâncias como a dopamina, uma anfetamina cerebral que produz desassossego. Todo apaixonado está nas nuvens, e sem saber, em nuvens carregadas de feniletilamina e dopamina.

          Dos neurotransmissores é a dopamina a que guarda a maior relação com a emoção amorosa. Quando um indivíduo está enamorado, o nível de dopamina cerebral está muito alto e quanto mais intensa é a paixão mais alto será o nível de dopamina.

A euforia, a insônia, a perda de apetite, o pensamento obsessivo de quem ama, estão diretamente  relacionados com os níveis de dopamina.

         O desejo sexual é incentivado pela dopamina e inibido pela prolactina que é o hormônio responsável pela produção do leite. Provavelmente no plano da natureza é conveniente que as mães completem o desmame de seus filhos antes de conceberem outro. E embora a prolactina não interfira nos orgasmos da mulher que amamenta, nada melhor para evitar uma gravidez do que reduzir o desejo sexual.

           A dopamina também, de alguma forma, está relacionada com as endorfinas, que são morfinas naturais fabricadas pelo cérebro. Elas são as drogas do prazer, seja ele o prazer sexual, seja o prazer da emoção amorosa. Quando uma pessoa sente orgasmo as endorfinas, por assim dizer, explodem na cabeça dela.

           Há vários tipos de endorfinas, sendo a beta-endorfina a mais conhecida e de maior eficiência eufórica.

           Quando estamos apaixonados o cérebro produz um determinado tipo de endorfina que da origem aquela sensação que todos nós conhecemos. Ficamos navegando nas nuvens, no sonho. Sentimos falta da presença do outro até quando o outro está presente.

         Mas o cérebro não produz a endorfina da paixão por muito tempo.

          A dra. Cindy Hazan, da Universidade de Cornell em Nova York, afirma que: "os seres humanos se encontram biológicamente programados para ficarem apaixonados durante 18 a 30 meses". Ela entrevistou e estudou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes, e descobriu que o amor possui um "tempo de vida" suficientemente longo para que o par se conheça,copule e tenha um filho. “Em termos de evolução ela afirma que “não se necessita de corações palpitantes e de suor frio nas mãos”.

         O fato é que quando a paixão declina, o cérebro passa a produzir um outro tipo de endorfina - a responsável pelo amor maduro.  Neste momento o par se encontra em uma encruzilhada: ou se separa ou se habitua a certas manifestações menos calorosas do amor – companheirismo, afeto e  tolerância.

         Não posso deixar de dizer que as endorfinas viciam, e há pessoas viciadas em amor. Imaginem o que sofrem com a síndrome de abstinência. A “dor de cotovelo” é a típica  síndrome de abstinência.

         Por outro lado que bom seria se todos ficassem viciados em amor. Às vezes eu fico pensando que o melhor que o sr Bush poderia fazer, era incrementar uma guerra biológica mundial, infectar todo o mundo com o vírus do amor. Que falta me faz hoje um Reich ou um Jean Paul Sartre.

         Os neurotransmissores que levam as sensações percebidas no meio ambiente vão regular as funções dos neurônios do hipotálamo que produzem os chamados hormônios hipotalâmicos. São exatamente estes hormônios hipotalâmicos que vão reger as funções da  hipófise e esta o funcionamento das gônadas.

          Eu aqui preciso falar de dois hormônios sexuais. O primeiro é o estrógeno que torna a mulher atrativa aos olhos do macho. Tenho um amigo que diz que, em questões de amor, o homem é um animal estrógeno dependente.

           O outro hormônio é a testosterona que é considerada como o hormônio do desejo sexual, tanto para homens como para mulheres. Esse hormônio é muito agressivo e animalesco, não tem nada de romântico. É a testosterona que faz com que os indivíduos procurem a relação sexual propriamente dita, independente ou não da emoção amorosa.

m termos de amor não posso também deixar de me referir a vasopressina e a ocitocina. A primeira conhecida pelos médicos como uma droga que aumenta a pressão arterial e a segunda conhecida, sobretudo, por seu efeito no trabalho de parto e na ejeção do leite.

         São estes dois hormônios que provocam una necessidade de contacto físico. Quando uma pessoa sexualmente excitante toca no outro, de imediato sobem os níveis de ocitocina e ocorre uma fome epidérmica que pode exigir um sexo tórrido, ou uma profunda necessidade do carinho.

         Eu falei da visão, eu falei do olfato e eu falei da audição como sentidos significativos para o amor, e quase me esquecia do tato. E por falar em tato não posso deixar de dizer que o beijo desperta não só uma enorme quantidade de produção de endorfinas, mas ele também é um excelente elemento para fisioterapia das lesões da face. Durante um beijo são mobilizados 29 músculos, sendo 7 linguais. Os batimentos cardíacos aumentam de 70 para 150, melhorando a oxigenação do sangue, o que mostra que o beijo tem também indicação cardiológica. Mas ele também tem alguns pequenos inconvenientes. No beijo há uma considerável troca de substâncias, 9 miligramas de água, 0,7 decigramas de albumina, 0,8 miligramas de matérias gordurosas, 0,5 miligramas de sais minerais, sem falar em outras 18 substâncias orgânicas, cerca de 250 bactérias, e uma grande quantidade de vírus. Não se assustem com esses números, o beijo é ótimo. Além disso, o beijo é calórico. Acredita-se que um beijo caprichado consuma cerca de 12 calorias, de modo que as gordinhas fiquem felizes por que talvez o beijo seja uma boa maneira de emagrecê-las.  E até existe uma terapia pelo beijo.

         Pelo que se vê, para que uma pessoa nos atraia de uma maneira irresistível, uma série de fatores entra em ação, e estes fatores tem muito a ver com a evolução das espécies, com a genética das populações e a genética individual, com a bioquímica e a neurobiologia. Todas estas variáveis criam em nosso cérebro um esqueleto neurológico, uma espécie de molde mental, que depois do nascimento, pela aprendizagem e vivências no seio da cultura,  vai formar nossos “esquemas cognitivos” e constituir aquilo que Money chamou de “mapas de amor”,  que determina o que nos excitará e o que nos levará a amar alguém especial. 

          Muitas pessoas pensam que entram em nossa vida por acaso. O encontro pode ser por acaso, mas não é por acaso que elas entram e permanecem.

          Eu falei sobre a biologia do amor. Sobre esta enorme quantidade de substâncias químicas que surge no corpo de quem ama, mas há uma pergunta fundamental que necessita ser respondida. O amor – e aqui falo em seu sentido global, amor sexual e emoção amorosa – é um produto de reações químicas ou a ativação fisiológica que ocorre no organismo de quem ama é o produto do amor? Enfim, o amor produz ou é produzido pelas substâncias químicas?

         Na psicologia cognitiva do amor há dois posicionamentos básicos. O primeiro é que o estímulo sexual procedente do ambiente determina uma reação orgânica, mas a ativação biológica por si mesma não é capaz de provocar a emoção amorosa. É preciso que o indivíduo interprete esta ativação fisiológica à luz de seus “esquemas cognitivos”. A resposta emocional depende mais do que o indivíduo avalia acerca de seu estado fisiológico do que do estímulo ambiental em si mesmo.

         Outro posicionamento, por sinal defendido por Aaron Beck e Albert Ellis, parte do pressuposto de que a avaliação cognitiva que o indivíduo faz do estímulo externo que recebe é que irá determinar ou não a ativação fisiológica.

         Discutir se avaliação cognitiva antecede ou sucede a cadeias de reações orgânicas que constroem a emoção amorosa é, ao meu ver, acadêmico.  O importante é fixar que a psicologia cognitiva do amor está baseada no fato de que a emoção amorosa não é produzida pelo estímulo ambiental, nem pela cascata de reações químicas que ocorre no organismo. Ela resulta da avaliação cognitiva que o indivíduo faz deste estímulo ambiental.  Não é sem razão que Epíteto afirmava, há centenas de anos, que “os seres humanos não são perturbados pelas coisas, mas pela visão que delas tem”.

           Eu não tenho dúvidas em afirmar que entre o estímulo ambiental e a resposta, há no ser humano, uma série de reações.                Nós olhamos para a estimulação ambiental através de nossos próprios óculos e o comportamento e as emoções são amplamente determinadas pelo modo como o indivíduo estrutura o mundo.

          Se John Money chama a esta avaliação cognitiva de “mapas de amor” ou Beck prefere chamar de “esquemas cognitivos” ou Ellis  chama esta avaliação de  “self talk” pouco importa.

          Um fato é verdade, o amor é uma coisa comum mesmo sendo a experiência mais extraordinária das nossas vidas. E por que o amor sendo coisa comum parece ser um mistério? Parte da culpa é atribuída aqueles, como eu, que tentam “explicar” o amor e terminam por reduzi-lo a uma enorme trapalhada.

          A este respeito Robert Salomon, em “About love”, afirma que existem dois tipos de estudiosos: os Perplexos que complicam totalmente o amor fazendo dele um mistério e um ideal e os Facilitadores que banalizam o amor e o consideram coisa muito simples.  São os Facilitadores que escrevem os manuais do tipo: Como aprender a amar, como segurar seu homem em 12 lições.             Eles vendem o amor em receitinhas de sucesso. Enquanto os Perplexos jogam com o nosso idealismo, os Facilitadores faturam em cima das nossas inseguranças.

          Chego ao término desta conferência com a mesma incerteza e a mesma perplexidade com que fiquei, há cerca de 10 anos, quando escrevi a História Natural do Amor.  Afinal de contas o que é o amor?

          Eu tenho a doce esperança de encontrar esta resposta um dia. Por ora quando eu abro uma porta, o amor foge pela janela. Como diz Mario Quintana “o amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem te enxerga, e mal repara em outro que só tem olhos para você.  O amor é como tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa”.

Bibliografia

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